Defensores apontam para o combate à disseminação de pornografia infantil, enquanto opositores alertam para uma ladeira escorregadia rumo ao Big Brother, vigilância em massa e violação de direitos fundamentais.
O cerne da proposta é que provedores e plataformas (como Twitter, Facebook, Telegram) inspecionem os serviços de mensagens e emails de seus usuários antes do envio. Violações das regras de conduta da UE deveriam ser comunicadas pelos provedores à Europol, que por sua vez pode repassar à polícia e ao judiciário.
Como serviços como WhatsApp e Signal utilizam criptografia de ponta a ponta, a detecção tecnicamente se desloca para o telefone ou computador dos usuários: a chamada ‘varredura do lado do cliente’ (client-side scanning, csa). Esse princípio é atualmente o elemento central do acirrado debate europeu: a UE não quebra o sigilo/criptografia por si só, mas permite que os provedores façam isso antes do envio.
A atual presidência da UE, Dinamarca, apresentou em julho um compromisso que determina que a criptografia não pode ser “enfraquecida ou contornada” e que somente tecnologia de detecção ‘certificada’ (ou seja, autorizada) pode ser utilizada. Críticos consideram isso semântica: se a varredura ocorrer antes da criptografia, isso de fato configura uma porta dos fundos. Esse conflito influencia a próxima votação.
Vários países da UE apoiam a proposta dinamarquesa, mas ainda há um bloco de opositores e indecisos. Países Baixos expressaram explicitamente na semana passada objeções às ‘ordens de detecção’ e alertam para monitoramento preventivo de cidadãos inocentes. Também países como Polônia, Áustria e Bélgica são citados como críticos ou contrários nas contínuas negociações diplomáticas.
Alemanha é considerada decisiva: se Berlim concordar, a minoria bloqueadora provavelmente desaparecerá e o plano poderá avançar — não apenas por seu peso político, mas também por sua parcela na população da UE. Contudo, a Alemanha ainda não votou a favor.
Segundo relatos, atualmente em cerca de metade dos casos de condenações por crimes graves na UE são usados evidências eletrônicas. Mais de 500 criptógrafos e especialistas em segurança alertam que a varredura em larga escala do lado do cliente é tecnicamente insegura e gera expectativas inalcançáveis.
Serviços de criptografia também expressaram preocupações semelhantes; alguns provedores afirmam preferir sair do mercado europeu a aceitar requisitos de segurança mais rigorosos. Essa é uma das razões mencionadas pela Alemanha até agora.
Enquanto isso, a proposta também esbarra em uma disputa maior de poder entre Bruxelas e as grandes empresas de tecnologia. Companhias americanas de tecnologia há tempos criticam a linha rigorosa europeia (DMA/DSA) que limita o poder de mercado e o uso de dados, e alertam para danos à inovação e ao serviço. As autoridades europeias, no entanto, mantêm sua posição e ressaltam a necessidade de uma fiscalização eficaz.

